Autoral

Trident de menta

Eu nunca entendi você direito. O jeito como me olhava e as coisas que me dizia, como se não fizesse a menor diferença se estava ou não ao meu lado. Você sempre estava. Quando brigávamos por besteira, eu sempre ficava com a sensação de que era melhor isso do que não estarmos próximos, não nos falarmos. Você sempre foi uma pessoa muito mais descolada do que eu e sempre teve ideias melhores a respeito do que quer que fosse. E eu, com um copo de Coca-Cola na mão, ficava olhando tua eloquência de bar, teus cabelos bagunçados e teu sorriso debochado. Aí um dia a gente saiu do bar e você precisava ir ao mercado comprar comida para o cachorro. Fui pensando que se tratava apenas de comprar comida para o cachorro. Você falava devagar, andava devagar e sorria devagar. Me explicou mais uma vez os motivos para não gostar da minha banda favorita e o que gostava em mim. Dizia que meu senso de justiça sempre foi afiado. E eu gostei e assimilei o elogio, mas nunca achei que esse fosse o melhor de mim. Só que àquela altura, se você estava dizendo, é porque deveria ser verdade. Na volta para o bar a gente estava andando tão devagar, mas tão devagar, que em algum momento nós naturalmente paramos. Paramos em frente a uma casa de muro baixo, você tentando me explicar o que aconteceu daquela vez em que simplesmente sumiu depois que eu pedi para você ficar. Era sempre assim, passávamos uma semana nos entendendo bem pra caralho e você, no último dia, fazia alguma coisa que me empurrava pra longe. Era o momento de você admitir que fazia de propósito. Que sabotava a ideia de que pudéssemos dar certo. Você me olhou desafiadoramente nos olhos, sorrindo de um jeito sacana de quem sabe que a partir daquele ponto não haveria volta, não haveria boicote nenhum que separaria a gente. E toda a eletricidade que eu sentia percorrer o meu corpo quando você chegava bem perto de mim para dizer bom dia se elevou a níveis incalculáveis. Você pegou minha mão e colocou na sua cintura, um gesto que eu jamais vou me esquecer, e pediu que eu me acalmasse, como se você tivesse um estetoscópio natural que medisse o ritmo dos batimentos cardíacos dessa pobre criatura. E foi só quando você chegou ainda mais perto e eu senti o cheiro do teu Trident de menta é que percebi que eu não voltaria (e nem queria) mais para o bar naquela noite.

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Enquanto chove

Naquele fim de tarde, eu sentei de frente para a janela no mesmo instante em que começava a chover lá fora. A ameaça pairava sobre nós desde os primeiros minutos de claridade do dia. Quando toda a água caiu, eu já tinha ido ao banco, jogado na loteria, comprado um quilo de contra-filé e comentado com a dona Noêmia sobre a porta emperrada. E agora tomava café da tarde sem pretensão de fazer mais nada até a hora de dormir.

Suzana me disse que iria embora um pouco antes. Acho que ela sacou que iria chover aquele tanto. Nos últimos dias, quando chovia, não era pouco. Começava com pingos finos e ia aumentando. Alagava tudo, entrava água pela janela e, se era madrugada, o barulho de uma goteira na caixa do ar-condicionado não nos deixava dormir. Talvez ela estivesse de saco cheio disso. Era uma rotina desgastante.

Eu até gosto de chuva. Do som, do cheiro, da temperatura. Eu gosto de olhar para o outro lado da rua através da cortina de água que se forma na janela. Gosto de ver como a violência do temporal mexe as árvores do quintal do Sr. Augusto. Às vezes até me divirto ao ver Tatu, o golden retriever dele, parado na janela olhando para tudo aquilo com o mesmo olhar que eu. Será que o Tatu pensava o mesmo de mim?

Mas naquele dia a chuva doeu. Olhando os faróis dos carros que passavam devagar, eu me lembrava do momento em que Suzana entrou no Uber. Ela não olhou para cima como fazia sempre. Eu tinha uma ligeira esperança de que ela fizesse isso, como sinal de que também daquela vez ela voltaria. Quando o carro (um Fiat Argo, placa UXV 5489) virou a esquina, olhei para o céu e vi os primeiros pingos da chuva. Não deu tempo de lamentar, reclamar ou chorar. Eu tinha que fechar as janelas do quarto e da área de serviço.

Depois disso, a rua começou a encher enquanto eu pensava nos possíveis motivos pelos quais ela tinha ido embora. Tudo estava muito difícil. Eu sabia que eu não era o que ela queria ou precisava, que os dias de sol não iluminavam suficientemente bem o momento nublado pelo qual passávamos. Eu sabia. Mas, assim como a previsão do tempo não evita o temporal, saber não evitava sua partida e nem diminuía a frustração.

A luz de um dos postes, o da esquina, se apagou. Naquele horário, muita gente estava voltando do trabalho. Ainda não era noite, mas o tom sépia do fim de tarde já embalava os passos das pessoas nas ruas. Tinha gente de guarda-chuva, tinha gente de capa, tinha gente sem nada disso. Todos voltavam para suas casas. Por mais que a chuva pegasse essas pessoas desprevenidas, ainda havia motivo para voltar para casa. Não para Suzana.

Depois de um tempo paralisado, percebo que o café está no fim, a novela das seis está acabando e vai começar o telejornal regional com notícias de alagamento, corrupção e perfumaria. A fúria das águas começa a se acalmar, depois de quase uma hora. Os carros ainda passam devagar, Tatu ainda está impaciente trancado dentro de casa, as pessoas ainda estão chegando enxarcadas de seus trabalhos.

E Suzana ainda foi embora.

Resenhas

Uma irmã (Bastien Vivès)

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Todos tivemos nossos ritos de passagem. A vida escolar, as provações infantis para mostrar aos outros que somos “legais”, a descoberta do amor e da sexualidade, as primeiras porradas que a vida adulta nos dá. Está tudo no roteiro quase inalterável dessa história que cada um de nós vive dia após dia.

Uma Irmã, de Bastien Vivès (Editora Nemo), é uma HQ sobre os ritos de passagem na adolescência. Acompanhamos uma fração da vida de Antoine, em um verão na praia com os pais e o irmão mais novo. Com 13 anos, ele não pertence mais às coisas da infância, ao mesmo tempo em que ainda não entende direito como se colocar em seu novo lugar no mundo.

A presença de Hèlène, filha de amigos dos seus pais (e que estão passando por um drama familiar sério), pode confundir ainda mais a cabeça do garoto, mas também pode levá-lo a se entender mais com as próprias bagunças. Hèlène é livre como só uma adolescente de 16 anos pensa que é. Tudo o que ela diz é interessante, tudo o que ela faz é desafiador. Sua presença é magnética e faz com que Antoine diga sim quando, por dentro, quer dizer não a qualquer convite inconsequente que venha dos lábios de Hèlène.

A garota, por sua vez, enxerga no novo amigo uma normalidade que talvez falte em sua vida. Ela própria, ainda em meio a suas descobertas, se interessa genuinamente pelo que Antoine tem a oferecer. Embora ela saiba melhor do que ele que o tempo que possuem é curto, eles se curtem e se descobrem juntos. E aproveitam esse instante de vida do qual certamente não se esquecerão por anos. É bonita a total falta de hierarquia que, no fundo, é o que permeia a relação dos dois.

A narrativa de Uma Irmã é deliciosamente sensual. Os traços simples são contrapostos a um estilo delicado de escrita e um roteiro que nos conduz sem pesar a mão, sem machucar de forma desnecessária. A descoberta do sexo e da paixão se mistura à percepção do que é ser jovem em um grupo social que nos enche de cobranças tolas.

Impossível não se ver na pele de Antoine e rememorar sensações há tanto deixadas para trás em nossas vidas. Mais do que o relato de uma paixão adolescente, essa é uma história sobre o primeiro amor e as descobertas da juventude, época em que tudo é urgente e nada parece ser finito.

A não ser o tempo que aquela garota poderá ficar ao seu lado, antes que os pais dela a levem para outro lugar — ou simplesmente de volta para casa.

Autoral

O destino da segunda carta de amor

Era 1989. Ano da queda do muro de Berlim, das manifestações estudantis na China e da eleição do Collor. Ano de lançamento do Brain Drain, dos Ramones, e de Bleach, o primeiro do Nirvana. Eu tinha nove anos e estava na quarta série do primário.

E também estava apaixonado.

Não da mesma forma como estaria apaixonado anos mais tarde, na adolescência, tantas e tantas vezes. Muito menos como na vida adulta me arrebatariam diferentes tipos de paixão. Mas eu definitivamente estava apaixonado, como protagonista de um filme do John Hughes.

Karina era perfeita. Melhor aluna da classe e com os olhos mais bonitos. Falava com doçura, sorria com o rosto inteiro e, na festa junina daquele ano, era a caipira mais linda de todo o “arraiá”.

E nunca deu a mínima para mim.

Eu fazia de tudo para chamar a sua atenção. Caprichava no futebol, no recreio, se sabia que ela estava na plateia. Elogiava seu tênis Bamba e sempre oferecia meu Mirabel de chocolate para ela.

Mas nada adiantava.

Foi então que tive a melhor ideia que eu poderia ter: escrever uma carta de amor. Anônima, é claro.

Fiquei dias pensando de que forma poderia fazer isso sem ela saber de minha autoria. E em como conseguir transpor para o papel tudo o que eu sentia. Xeretei a estante de livros do meu pai, em busca de livros de poesia, e puxei pela memória as melhores cenas dos filmes a que tinha assistido até então.

Em um domingo, na casa da minha avó, pedi emprestada a máquina de escrever da minha tia e coloquei uma folha de sulfite. Iria datilogravar para ter mais certeza do anonimato. E caprichei.

Claro que errei muito no começo e logo havia diversas bolinhas de papel ao meu redor. Uma carta de amor que se preze não pode ter razuras, não pode ter corretivo. Mas, em algum momento daquela tarde de domingo (antes de começar o programa d’Os Trapalhões, é lógico), a carta ficou pronta.

Senti um certo orgulho. Toda a minha paixão estava ali. Rimei bastante amor com dor, contei das minhas intenções de ficar com ela por toda nossa vida, falei do quanto seu cabelo me hipnotizava e de como não me cansava de olhar para ela na classe. Por fim, assinei: “seu admirador secreto”.

No dia seguinte, cheguei mais cedo, com a folha dobrada e dentro de um envelope. Deixei embaixo da mesa (que a gente chamava de carteira) dela. Voltei para o pátio para subir com os outros coleguinhas, como se nada estivesse acontecendo, como se minha vida não fosse mudar radicalmente depois daquele dia.

Não demorou e ela descobriu o envelope. Abriu delicamente e leu com atenção (acho até que duas vezes). Ela começou a sorrir; e eu, a me encher de esperança. Na hora do recreio, mostrou a carta para a melhor amiga e as duas andaram suspirando pelo pátio da escola. Ela apertava a carta contra o peito, como se não quisesse nunca perdê-la. Foi o dia mais feliz da minha vida até então.

Eu precisava fazer alguma coisa. Passei o resto da semana pensando em como revelar minha identidade e lhe reafirmar, olho no olho, tudo o que a carta dizia. Mas antes eu precisava reforçar suas impressões. Então, escrevi uma segunda carta.

Caprichei ainda mais. Descobri rimas novas para a palavra amor, falei do seu sorriso, dos olhos, da festa junina, dos planos que tinha para nossas vidas dali pra frente. Novamente dentro de um envelope, deixei a carta lá, antes de todo mundo subir para a classe.

E mais uma vez não demorou para que ela descobrisse o envelope embaixo da carteira. Leu tudo até o fim atentamente. Dessa vez, não tive a impressão de uma segunda leitura. E o que ela fez a seguir me deu a certeza de que ela já descobrira a identidade de seu “admirador secreto’.

Ela se levantou de sua cadeira e, no caminho até a frente da classe, foi rasgando a carta em 2, 4, 8, 16, 32 pedaços. Por fim, jogou os fragmentos na lata de lixo e voltou para o seu lugar.

Sem sequer olhar para trás.

Autoral

Nova chance para a autoajuda

Um dos livros mais vendidos nas últimas semanas é A Sutil Arte de Ligar o F*da-se (Mark Manson), uma obra de autoajuda que é quase uma anti-autoajuda. Propõe que paremos de buscar sucesso a qualquer custo e de nos sentirmos menores só porque não enxergamos o lado bom de estarmos fodidos nessa vida.

Para isso, o autor sugere que enfrentemos o mundo muito mais conscientes de nossas limitações e escancara que não somos um grãozinho de areia especial no universo. Quase como um amigo que joga umas verdades na sua cara — e faz isso para o seu bem.

O sucesso de um livro que não promete soluções mágicas ou segredos místicos do poder do pensamento positivo me faz refletir sobre como encaramos o gênero e como ele se transformou nos últimos anos.

A autoajuda clássica continua frequentando a bancada de mais vendidos nas livrarias, com as mesmas propostas que me fizeram nutrir tanto preconceito por esse tipo de trabalho. Mas há um novo movimento de autores que sabem que não existe milagre e que realização a qualquer custo nunca é saudável. São livros que oferecem caminhos, mas dizem: “você não precisa seguir isso aqui ao pé da letra”.

Mas, “se eu gastei meu dinheiro em um livro para tentar sair de uma situação ruim, eu quero que esse livro resolva meu problema”. Você não está errado em querer isso. Errado é quem garante que você vai ter esse resultado.

E esses novos autores fazem diferente. Eles oferecem ajuda e orientação, um caminho que pode ser seguido. E não uma solução milagrosa. Recentemente li três dessas obras, que abordam três diferentes aspectos: paz de espírito, organização e estilo de vida.

Monge Urbano (Pedram Shojai) propõe pausas no dia a dia para que relaxemos e cuidemos de nós mesmos. Não é preciso se isolar numa montanha do Tibet para ter esse momento. O autor oferece ferramentas bem plausíveis e tarefas facilmente realizáveis.

Diário em Tópicos (Rachel Wilkerson Miller) é um livro sobre a técnica do bullet journal. Você substitui agendas e calendários por um caderno que serve como agenda, diário, rascunho para ideias, registros do dia. Útil e prático na busca por organização.

Em Menos é Mais (Francine Jay), a proposta é o minimalismo. Quem me conhece sabe que estou tentando mudar meu estilo de vida e ser menos “acumulador”. Nessa leitura, encontrei dicas de como começar a me livrar de coisas de que realmente não preciso.

Podemos dizer que os três são autoajuda. Cada um dentro de uma subdivisão embaixo do mesmo “guarda-chuva”. E cada um, a sua maneira, deixa o leitor à vontade com o que absorve de seu conteúdo. Não tem fórmula, solução milagrosa ou segredo. Há técnicas práticas e conversa franca.

Por isso, acho que podemos dar uma chance a essa nova roupagem da autoajuda. Hoje, mais do que nunca, o sucesso desse tipo de livro é um sintoma das necessidades e carências da sociedade. E continuar a enxergar isso com a mesma carga preconceituosa que havia há alguns anos é não perceber a realidade.

É claro que ainda existe muita picaretagem — muita mesmo! Mas isso existe em qualquer gênero literário. Só precisamos saber diferenciar o que vale e o que não vale ser absorvido.